Pândiga

Synopsis


Pândega” (ou “pândiga“, na pronúncia romani) é palavra de origem cigana, incorporada à língua portuguesa como sinónimo de festa, farra, grande divertimento. Porém, a história que sustenta essa palavra quase se perdeu: desde 1526, uma longa sucessão de leis repressivas apagou e marginalizou a língua e a cultura ciganas em Portugal. Em 2026, cumprem-se 500 anos desse processo de repressão e invisibilização.

Pândiga nasce como resposta a esse silêncio histórico, prolongando o trabalho iniciado com o projeto Lungo Drom (apoiado pelas Fundações Calouste Gulbenkian e “la Caixa”), em que trabalhámos com comunidades escolares e informais na criação de objetos artísticos (baralho de cartas, peça radiofónica, filme de animação). Através desses processos, fomos descobrindo que a mediação cultural pode ser uma forma de resistência: um lugar onde se abre espaço para pensar o que é preconceito, o que é anticiganismo, o que é a lei cigana, que viagens e encontros trouxeram o povo cigano até Portugal.

O ponto de partida dramatúrgico é a Farsa das Ciganas, de Gil Vicente, apresentada em 1520. Seis anos depois, o primeiro alvará de D. João III contra os ciganos instaurava a perseguição legal que atravessaria séculos. A peça e a lei estão lado a lado no nascimento de uma narrativa nacional: a alteridade como ameaça. A nossa pergunta é outra: e se, em vez de expulsão, tivesse havido festa? Se um povo “estranho” chegasse hoje, trazendo cavalos e adivinhasse o futuro, como o receberíamos?

Pândiga propõe-se a trabalhar esse “e se” utópico, assumindo a festa como prática de resistência. Nas oficinas de dramaturgia e residências abertas — em Évora, Torres Vedras e Vale da Amoreira — revisitamos Gil Vicente a partir do presente, cruzando a sua farsa com a obra da poeta e mediadora intercultural Olga Mariano. O resultado é um texto reescrito coletivamente, que desemboca numa celebração pública: música original de Carlos Mil Homens, canto e dança como resposta artística a séculos de marginalização.

Entre a memória e a utopia, Pândiga é um ensaio performativo sobre a alegria como gesto político. Como nos lembra bell hooks, a intimidade e a partilha podem ser práticas de liberdade; e, com Judith Butler, reconhecemos que assumir a vulnerabilidade comum pode ser um ato de resistência. A festa torna-se, assim, um abrigo temporário — uma “toca” coletiva — onde sociedade maioritária e comunidades ciganas, migrantes e estrangeiros, se encontram e reinventam o gesto de acolher.

Pândiga é uma provocação histórica e uma celebração contemporânea: uma festa que se ergue como ensaio de fraternidade